Evandro Alberto Lanfredi, talvez assim, com o seu nome completo, alguns alunos dos anos 90 da E.E. Deputado Cesar Costa não se recordem, mas se o apresentarmos como “Professor Caju”, provavelmente a memória se refresca e é possível lembrar desse professor de educação física que marcou época na escola de Quiririm.

No dia 15 de outubro, data em que se comemora o dia dos professores no Brasil, este professor de 58 anos, peculiar, exigente, divertido e quase sempre muito engraçado e atencioso, retorna, a convite do Quiririm News a escola que, segundo ele, mais o marcou e que até os dias de hoje deixa saudades.

Formado em Educação física em 1983 pela UNITAU (Universidade de Taubaté), Caju começou como sonoplasta em rádio, mas sempre foi do mundo do esporte, jogava futebol e adorava corrida, os saltos, e através deste gosto rumou sua vida para a graduação na área, até se tornar professor.

Aos 27 anos teve início sua carreira em sala de aula que se encerrou ao 56 anos, sempre dando aulas de educação física. E é nestes cerca de 30 anos de profissão que Quiririm aparece.

“Eu comecei em uma escola pequena na estrada do barreiro, em 1987, como tinha pouca aula lá, eu comecei também no Dep. Cesar Costa. Fiquei durante 10 anos, depois eu sai daqui porque houve uma mudança na educação, entrou uma secretaria nova e fiquei triste de sair daqui, até chorei, vim pegar minha documentação aqui e chorei”, relembra com pesar o professor.

O apelido Cajú:

Mas como um professor exigente aceitou ser chamado por apelido pelos seus alunos? Como todo apelido que se preze, quem o recebia não gostava, assim, logo pegou e ficou, mas, antes disso, foi oficializado de forma involuntária, como conta o professor.

“Me lembro de um aluno que me colocou o apelido de Caju. Nestor era o nome dele, ele que me colocou o apelido de Caju. Foi assim, num dos primeiros dias que vim dar aula aqui, cheguei na sala e ele falou: – Professor você já deu aula aqui? Aí eu falei que não e ele falou deu sim, o senhor é o Caju, aí comecei a ficar bravo porque eu não queria apelido né. Quando dai, no pátio o pessoal começou “o Caju, o Caju”, aí eu ficava bravo, levava para a D. Rosinha (diretora), daí um dia nós ganhamos um campeonato de vôlei, jogos de primavera, a D. Rosinha fazia homenagem para os alunos e chamou o professor, que era eu, e aí chamou “o professor Caju”, aí, pronto, ficou, e agora todo lugar que eu vou é Caju”, explica o surgimento do apelido.

Evandro Lanfredi

Professor Evandro Caju retornou a quadra escolar onde trabalhou durante anos – Foto: Quiririm News

Politicamente incorreto?

“Pamonha, íngua, filhote de cruz credo”, quem com o Professor Caju estudou, com certeza, ao menos uma vez, já foi tachado por alguns destes adjetivos, que, no primeiro momento podem até parecer ofensivos, entretanto, são estes alguns dos momentos que a maioria dos alunos se recordam com carinho.

“Eu gostava de antigamente, viu, o aluno tinha que estudar para passar, hoje em dia o aluno passa de qualquer jeito né, e a questão de chamar de pamonha, íngua, filhote de cruz credo foi até eu me aposentar. A gente tinha amizade, eu tratava os alunos como filhos, a gente dava risada, os últimos anos que eu trabalhei foi a mesma coisa de sempre, não mudei nada, tratava aluno como meu filho, era assim que funcionava”, afirma Caju, que à época tinha entre seus alunos suas filhas, e mantém amizade com ex-alunos até os dias de hoje, “Meus ex-alunos são meus amigos, ele sempre dizem que eu era diferente”.


Competições, troféus e subir escadaria de carro:

Antes mesmo da quadra de esportes da escola receber cobertura, o professor com criatividade obtinha resultados positivos em competições escolares. Com promessas pouco convencionais aos alunos, ele conquistou medalhas em jogos entre escolas, regionais e levou seus alunos para competições estaduais.

“Ganhamos grandes campeonatos, vôlei, futsal, foram bastantes medalhas e troféus. Eu lembro de tudo, as vitórias, e as promessas (risos). Eu ia descer a escada da igreja Matriz de Rural (Rural Willys, veículo utilitário da década de 70), depois disso não sei o que aconteceu, não paguei essa promessa, mas a equipe não foi campeã né, foi uma promessa que se o time fosse campeão eu ia subir ou descer a escada, aí no fim acabei vendendo a Rural”, relata.

“Me lembro que tínhamos poucos recursos, eu fazia os alunos treinarem saltos em distância, usava muito da criatividade. Não tinha tempo ruim, tinha que ensinar a criançada e com a maior felicidade ia descobrindo talentos, o que eu queria era os alunos participando das competições”, conta Caju.

Professor Evandro Lanfredi

Professor Evandro Caju ao lado da árvore que plantou em busca de sombra durante suas aulas


Caju ou jambo:

No tempo em que lecionava em Quiririm, por vezes o sol castigava, e ao retornar a quadra da escola, depois de anos, Caju fixou os olhos direto em uma árvore, hoje frondosa, e revelou, “Eu plantei essa árvore já prevendo o futuro, era para eu ter uma sombrinha, na época não tinha cobertura na quadra e eu já pensava no futuro”, por ironia da vida, a árvore escolhida pelo professor foi um pé de jambo, “Eu deveria ter pensado em um pé de caju né (risos)”.


O que é ser professor:

Definir um professor pode ser complexo ou extremamente simples. Sempre na essência será aquele que ensina. Questionado sobre a profissão, Evandro Caju dá a sua resposta.

“Professor é tudo na vida de uma pessoa. É educação, é ser amigo, é convivência pessoal. É ele que vai ensinar e se eu pudesse escolher, eu seria professor de novo. A gente aprende com os alunos todos os dias”, define.


Escola Dep. Cesar Costa, relação de carinho:

Antes mesmo de se tornar o Professor Caju, Evandro, ainda pequenino teve seu primeiro contato com aquela escola, que seria um marco em sua vida. Foi na Deputado Cesar Costa que ele fez a terceira e a quarta série do Ensino Fundamental.

Apesar de tantas histórias marcantes, momentos positivos e do imenso carinho, a vida levou Caju e seu ensino diferente para outros ares. Ao todo, o professor passou por 28 escolas de diversas cidades, mas lá na memória sempre esteve Quiririm.

“Se eu pudesse ter escolhido eu ficaria aqui até aposentar, inclusive, quando eu passei no concurso, em 1998 eu escolhi aqui, mas não tinha vaga, acabei efetivando em Paraibuna, gostava daqui”, enfatiza Caju, que ressalta, “Nunca me esqueci dessa escola, os alunos, o carinho dos alunos”.

Lágrimas de gratidão:

Como se toda sua vida passasse em minutos a sua frente, relembrando momentos, escolhas, desafios, Caju não pôde conter as lágrimas de gratidão de seus olhos, que transborda entusiasmo e afeto quando o assunto é ensinar. Sua reação demonstra um dilema interno onde o corpo pede aposentadoria, mas o coração pede a sala de aula.

“A gente fica feliz né, por saber que as pessoas e as crianças gostam da gente, é bom né, saber que é querido, quando eu aposentei, vi o pessoal chorando, a criançada tudo chorando, você se emociona (conta chorando emocionado novamente), eu fui falar com todos os alunos, eu entrei em todas as salas e eu chorei, foi difícil viu, e eu pedi a aposentadoria e achei que ia demorar para aprovarem, aí eu pensei, vou pedir agora que quando eu tiver com 60 eu aposento, acho que foi praga viu (risos), foi questão de três meses e minha aposentadoria saiu, podia demorar um pouco mais. No fim, tive que sair antes e deixar os alunos, foi um sofrimento, foi triste, eu sinto falta dos alunos, de trabalhar um pouquinho com os alunos, foram quase 30 anos trabalhando com a criançada”, relembra.

Dever cumprido:

Mesmo que um pouco a contragosto, a aposentadoria chegou, e o sentimento de saudade aos poucos vai dando espaço para o orgulho e prazer de dever cumprido.

“Tenho orgulho de ver alunos que seguiram a profissão de educação física, é bonito isso. Graças a Deus todos os meus alunos, a maioria deles se deu bem na vida. Hoje, entrando aqui, voltou o tempo né, chegando aqui volta aquele tempo e a escola sempre foi a melhor opção para mim, e se um dia eu precisar trabalhar eu vou querer escola, e se um dia eu nascer de novo, na próxima encarnação, eu vou ser professor de educação física de novo”, disse o professor.

Caju, além da satisfação com seus alunos, pode se orgulhar também das três filhas, um formada em direito e outras duas formadas em educação física. Neste dia do professor, a carreira deste educador aposentado serve como inspiração para alunos e professores, onde o bom relacionamento e o respeito mútuo levou professor e alunos a desfrutarem o máximo do ensino e a construírem juntos boas histórias.

“Graças a Deus estou tendo a satisfação em ver todo mundo (meus filhos e ex-alunos) bem, queria agradecer a eles por tudo, por ter conseguido me aposentar”. Ao fim da entrevista o professor Caju externa mais uma vez o seu dom de mestre e encerra, “E para os que ainda estão na escola, estudem e obedeçam os seus professores”.

Evandro Lanfredi Caju

Evandro Lanfredi, o professor Caju com um apito que ganhou de um aluno e guarda com carinho até hoje – Foto: Quiririm News

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Um comentário para “Especial Dia dos Professores: Nos anos 90, Evandro, o Caju, marcou época na escola Deputado Cesar Costa”

  1. Vanessa

    Melhor professor , melhor treinador , nunca me esquecerei dos dias de competições , todos nós na rural vermelha e branco , ou então de qdo fui pra roça com ele e sua família e me diverti horrores. Caju sempre atencioso, principalmente com seus atletas!!

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