Orides Alves com suas lembranças e medalhas - Foto: Douglas Castilho/Quiririm News

O que faz do esporte uma atividade tão mágica e maravilhosa, que une países, povos e pessoas? Entre tantas possíveis conclusões, o fato de imprimir um time, nação ou um nome na história e nos fazer sentir de que a vida não foi em vão é uma delas.

E como o tempo e a humildade às vezes nos engana, quem em Quiririm vive, com certeza conhece ou pelos menos já ouviu falar do Sr. “Bidala”, apelido carinhoso do “Corintianíssimo”, simpático e prestativo Sr. Orides Alves.

Do pacato vizinho e amigo, o que poucos sabem é que existe um grande campeão, para muitos de sua época, um temido atleta, que em meados dos anos 60 e 70 despontava no atletismo nacional e tirava o sono de seus adversários.

Orides Alves, a vida toda para crianças dos anos 80/90 como eu fui, era o vizinho gente fina, que sempre que precisávamos estava lá com sua bomba de ar, enchendo os pneus e bolas de futebol da criançada. Confesso que tinha vezes que o pneu estava cheio a ponto de explodir, mas chamar aos berros: “Seu Orides!!” na cabeça inocente de criança sempre foi como abastecer a moto no posto, ou até mesmo se imaginar em um Pit Stop.

Este homem nunca me atendeu sem um sorriso no rosto e sem me perguntar sobre nosso time, o “coringão”. E esse jeito faceiro, interiorano, humilde, é que surpreende. Há anos venho querendo desvendar o que existe atrás deste hoje, olhos cansados, mas corpo ativo, do vizinho que boatos diziam ser um atleta.

Em uma breve pesquisa na internet pude descobrir que este vizinho, de quase nenhum alarde, é nada mais, nada menos, que um dos principais atletas que a Polícia Militar do Estado de São Paulo já teve em toda sua história. (Orides Alves citado no site da Revista Veja).

O início: 

O que faz um grande campeão? Talvez a resposta seja as barreiras enfrentadas. Na década de 60, surgia por acaso um campeão, que participou descalço de uma corrida de seis quilômetros em Quiririm, e a partir dai se apaixonou pela corrida, “Aqui foi onde tudo começou, no Quiririm. No fim de ano teve uma corridinha, eu acabei participando e acabei ganhando, e eu corri descalço 6 quilômetros e ganhei com uma diferença boa de uns 100 metros”, orgulha-se Orides, hoje com 75 anos, pai de 5 filhos e avô de 5 netos.

A partir daí, Orides ingressou na força pública e na escola de educação física, que é hoje a Polícia Militar do Estado de São Paulo, onde, com mais incentivo, alçou voos mais altos. 

Argentina, Peru, Chile e Porto Rico: 

Com incentivo da Polícia Militar, o atleta conheceu outros países. Na Argentina foi campeão sul-americano, depois esteve em San Juan – Porto Rico, Santiago – Chile e também Peru.

Mas o que mais brilha os olhos do ex-atleta foi conquistado no Brasil, em São Paulo, “A mais famosa de que participei foi a São Silvestre, que é uma tradição né, mas a que eu mais gosto é a prova pedestre Luiz Gonzaga Rodrigues em SP, a Gonzaguinha, que eu ganhei 5 anos seguidos, essa era só os brasileiros, onde tirava os 100 melhores do Brasil para disputar no pelotão de elite da São Silvestre, esse foi o que mais marcou, ganhei em 1967, 68, 69, 70,71”, lembrou o ex-campeão.

Na São Silvestre, entre tantas vezes que disputou, a primeira prova foi a que conseguiu melhor resultado, Orides Alves chegou em 32º lugar, mas como o próprio salientou, a corrida “Gonzaguinha” foi onde se sentiu pleno, ficando cinco anos entre os melhores do país. Falando em gosto, um Troféu conquistado em Apucarana – 68, em prova pedestre de 9 KM, é o troféu que acha mais bonito, e também marca o maratonista, já que o ano foi também quando nasceu seu primeiro filho.

No Chile, Orides conquista o bronze da maratona, um terceiro lugar inédito para o Brasil naquela época, bronze nos 5.000 e 10.000 metros do Sul-americano-1967.

“Uma recordação muito boa é a maratona no Chile, corri 42 km e fui terceiro no geral, na época o primeiro brasileiro a conseguir o terceiro lugar”, conta o atleta por fora meio acanhado, mas o olhar transparece, Orides Alves vibra pela conquista.

Acervo: Orides Alves

Acervo: Orides Alves

Acervo: Orides Alves

Acervo: Orides Alves


Reconhecimento:

Orides Alves no auge de sua carreira - Foto: Acervo pessoal

Orides Alves no auge de sua carreira – Foto: Acervo pessoal

São mais de 60 primeiros lugares, 360 medalhas, 5 troféus. Tantas premiações e pouco reconhecimento por parte da cidade natal Taubaté.

De homenagem pelas conquistas, apenas o Panatlhon Clube junto do SESI em 2007 e a Polícia Militar o homenagearam.

Em Quiririm, por alguns anos, próximo a festa da colônia italiana de Quiririm, evento tradicional e de maior repercussão no distrito, acontecia a prova pedestre Orides Alves, que com o passar dos anos se perdeu e hoje não acontece mais, “Era importante se mantivesse, não na minha presença, mas para quem é de fora vim e participar, é um incentivo, do mesmo jeito que eu comecei em Quiririm outros poderiam começar”, explica Orides.

“Eu dou valor pela PM, se não fosse a PM eu não tinha conseguido nada, eu estou há 24 anos aposentado, se não fosse a PM eu estava trabalhando na fábrica, longe do esporte né, um certificado de honra ao mérito, é muito importante as pessoas reconhecerem que eu sou um atleta aqui do Vale do Paraíba, tenho que guardar isso o resto da minha vida”, ressalta Alves.

 

Diferenças:

Com a crescente procura as corridas de rua vem ganhando cada dia mais adeptos e espaço na mídia. Hoje, atletas como Usain Bolt vivem do esporte e faturam milhões por ano.

Orides explica que nem sempre foi assim, “Se fosse hoje os meus feitos seriam bem mais importantes né, tem bem mais apoio, antigamente eu corria na raça, e ainda trabalhava na PM. Atualmente tem de tudo, nós fomos um alicerce para essa turma nova que está ai”, conta.

Questionado sobre o que o atletismo deu para ele durante os anos de carreira, Orides deixa claro a diferença, “O atletismo me deu praticamente a minha saúde, e mais outras coisas né, financeiramente a gente corria na raça e não tinha nada disso, não tinha dinheiro, inclusive sair fora do país, ganhar bolsa de estudos, na minha época não existia”, ressalta.

Paixões:

Lucas segura as medalhas conquistadas pelo avô - Foto: Quiririm News

Lucas segura as medalhas conquistadas pelo avô – Foto: Quiririm News

Longe das provas, Orides Alves divide seu tempo entre 3 paixões: Família, Corinthians e a caminhada. “Hoje é só na caminhada para não parar de vez”, conta sorrindo.

Fã de futebol, ele se lembra com orgulho de um troféu conquistado que enfeita a sala de troféus do Parque São Jorge, “Eu ganhei a prova no Parque São Jorge, tem um troféu por equipe lá”, e avisa, “O meu neto já corre, ele tem 13 anos e já conquistou 20 medalhas”, conclui.

Entre outros atletas, o feito de Orides Alves já foi citado em matérias nos sites da revista Veja e também da Gazeta, “Isso me orgulha muito, eu não sabia disso se não fosse você, isso é muito legal”, alegra-se Orides Alves.

Mais que um vencedor, um exemplo de que grandes feitos podem ser conquistados todos os dias com uma dose de incentivo, e que a humildade que por muitas vezes não vemos em grandes craques do futebol e atletas medalhistas de hoje, nem de perto retrata a realidade vivida por Orides Alves e tantos outros campeões do atletismo e de outros esportes pouco divulgados.

A história deste personagem, que coincidentemente surge novamente junto com mais uma edição de São Silvestre em São Paulo, corrida esta, tantas vezes disputada pelo campeão Orides Alves, retrata a perseverança, humildade e amor ao esporte que um corredor deve ter e que, muitas vezes passa desapercebido em nosso dia-a-dia.

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